O que são raízes hoje?

Eu estava esses dias lendo uma entrevista que a Eliane Brum fez com uma psicóloga que integra a equipe dos Médicos Sem Fronteiras. Uma conversa linda, sobre coisas que realmente importam, com relatos do pior e do melhor do ser humano. A entrevista chama a atenção por vários aspectos: a forma com que a Débora encara viver em total privação de conforto para amenizar o sofrimento dos outros; o renascimento de pessoas que foram submetidas a coisas terríveis e voltam a deixar a vida germinar dentro de si; a compaixão totalmente desenvolvida da psicóloga, sua capacidade  de sentir a dor do outro tão emergencial como se fosse sua.

Além destes fatores super profundos, há também um trivial, que me tocou muito: a noção de pertencimento. ”Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser”, diz ela sobre ter largado toda sua mobília no corredor de seu prédio par poder desocupar seu AP e correr para atender uma missão humanitária. “ Se roubarem, roubaram… O que eu vou fazer? Não posso passar minha vida inteira segurando uma televisão na mão. (…) Se eu não posso carregar, não é meu”.

Achei incrível esse conceito de raízes aéreas e, assim como à Débora, creio que ele faça sentido para muita gente. Com alguma expressividade, aparece uma comunidade na nossa sociedade (eu to dentro e muitos amigos e conhecidos também) de pessoas que não fazem questão de estar vinculadas a um lugar ou a coisas para construir seus sonhos e objetivos.

O que mais me faz refletir sobre  optar por esta leveza de raízes é que escolher não estar vinculada a um lugar não te furta de querer estar vinculada a pessoas. Ampliar o mundo e se desvencilhar de coordenadas geográficas exige que nossas relações de família, amizade e afeto sejam extremamente maduras e verdadeiras para existir – o que não deixa de ser uma prova interessante. É intenso viver assim. Desde o começo do ano, me divido em três cidades e me concentro em manter aquilo que importa, em ter tempo só para contactar com o que é verdadeiro. Fico pensando se não deveria ser assim sempre e em como seria se toda a nossa sociedade vivesse desse jeito. Viveríamos em intensidade, ou na falta de relacionamentos?

Publicado em bobagens, mi casa por isabelcolucci. Marque Link Permanente.

Sobre isabelcolucci

Isabel >> 12 de junho de 1985 >> nascida em São Paulo, criada em Floripa, mora entre São Paulo e Brasília. Jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, estudou seis meses University of Nottingham, no Reino Unido. Coordenou o Núcleo de Inclusão Digital da Fundação Padre Anchieta / TV Cultura de São Paulo, onde participou da discussão da mudança da legislação brasileira para lanhouses e centros de inclusão digital. Na emissora, também integrou a equipe que implantou as transmissões online e participativas dos programas via internet e criou a presença da instituição em redes sociais. Participou do grupo de especialistas que avaliou a pesquisa TIC Lan Houses, do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Pesquisa e se envolve em projetos de usos da tecnologia para a transformação social.

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