para a parede

Quando eu era pequena, tinha em casa a ‘parede da bebel’ – uma parede em que meus pais me deixavam fazer tudo o que quisesse: riscar, colar coisas, rasgá-las e colar outras por cima – o que desse na telha.

Agora quero fazer uma nova versão desta parede, no corredor dos quartos de casa – rá… porque a gente se emancipa e sai de casa, mas crescer mesmo, só para o que é estritamente necessário!

Nessa parede vou colar adesivos com frases bonitas, bem construídas, que valorizem a profundidade da nossa alma.

Todos estão convidados a criar e indicar frases assim. Auto-ajuda barata, não. De resto, fiquem à vontade em http://piratepad.net/2PKysYQkaI

Um beijo e obrigada!

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O que estou grifando de A Resistência, de Ernesto Sabato

Digo que não estou lendo este livro. Eu o estou rezando.

“Há certos dias em que acordo com uma esperança demencial”;

“Peço a vocês que paremos para pensar na grandeza que ainda podemos pretender se ousarmos avaliar a vida de outra maneira. Peço a nós esta coragem que nos situa na verdadeira dimensão do homem” (morri!);

“Não há outro modo de atingir a eternidade a não ser aprofundando-se no instante”

“Toda vez que perdemos um encontro humano, alguma coisa se atrofia em nós”

“… a eternidade da alma na humildade de uma prece”.

Estou lendo este livro pela segunda vez. Aos 23, grifei de lápis e agora aos 25 estou grifando em azul.
Repito: grifem seus livros! Não tem álbum de fotografia melhor sobre a sua cabeça!

Mapa de livros e lugares

Já faz um tempo eu quis saber que livros se passavam em Viena (Daniel estava a caminho de lá e eu queria sugerir um livro que se passasse na cidade para ele ler  antes de partir). Perguntei para amigos que estavam por perto e todo mundo ficou com aquela sensação de “eu sei, mas não lembro de nenhum agora”. Lembramos de dois e eu quis anotar em algum lugar. Por isso, fiz um mapa no Google Maps (e só parei para falar dele agora) que aponta lugares onde os livros se passam. Ele é colaborativo, claro. Já tem uns 50 livros cadastrados, mas podemos incluir bem mais!

Se lembrar de algum livro que tem a cidade onde se passa como uma quase personagem, passa lá =)

Sobre os sensíveis e a felicidade

“Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
(…)
Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te.
Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação:um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.”
Carta de Caio Fernando Abreu a José Márcio Penido

Antes de escrever este post, preciso contar o caminho que fiz até decidir escrevê-lo.
Estava passeando pelos sites da TV Cultura, até que caí no de Tudo o que é sólido pode derreter – uma produção impecável, com um texto super bem escrito, da Ioiô Filmes.  (Re)assisti ao episódio sobre o livro Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, da Clarice Lispector – Tudo o que é sólido pode derreter tem 13 episódios baseados em obras da literatura em português. No site tem todos os episódios, vale muito a pena.

Revi este episódio especificamente porque sou fã de Clarice e porque me encanta a forma com que o seriado dá conta de mergulhar nas entrelinhas dos livros retratados; combinava com uma terça de insônia ver os promenores deste livro ampliados.

Estou lendo O Ovo Apunhalado, do Caio Fernando Abreu, e, assistindo à série, lembrei de uma frase que tinha visto no perfil dele no twitter (obviamente mantido por outra pessoa). Era “Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía”.

Decidi procurar “caio fernando, clarice lispector, doía” no Google e encontrei o texto todo. (já dei o link, mas não custa dar de novo http://www.releituras.com/caioabreu_menu.asp) .

Lendo a parte que colei aqui no blog, voltei a uma questão que me é recorrente, desde que  escrevi sobre ela em uma carta a uma amiga, no início do ano.  Volta e meia, penso na necessidade/não necessidade da dor para viver o belo.

Estava lendo Isabel Allende, quando comecei a pensar sobre isso. Nos idos de fevereiro de 2009, escrevi a esta amiga que havia concluído que algumas pessoas vivem em um mundo mais bonito, mas com oscilações de temperatura terríveis. Acho que é este o mundo dos sensíveis, um lugar com (perdoem a pieguice)  vendavais de sentimentos sob chuvas de estrelas cadentes e auroras boreais.  Tenho a sensação de quanto mais bonito o que a pessoa pode ver, mais fortes os ventos que ela precisa aguentar.

Eu me considero uma pessoa sensível, mas não trago o sofrimento e a loucura dos que escrevem textos como os da Clarice Lispector e o do Caio Fernando Abreu. O que ganho com isso é que, provavelmente, sou mais feliz. O que perco é que, com certeza, não vejo algumas maravilhas que eles viam. Acho que cada um vai até onde aguenta, como o Caio disse ao amigo: Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói.

Tudo isso me intriga porque coloca a felicidade atrelada ao medíocre.
Ser feliz implica em não ir até o mundo mais bonito, implica em não ver o que tem de mais belo para ser visto.

Isso soa muito antagônico e imperfeito para quem acredita na grandeza da felicidade, como eu acredito. Preciso pensar mais nisso, chegar a outras conclusões. Tem alguma variável me escapando nesta equação.

Chega de organização mental no blog hoje, que eu já estou ficando com sono!

Boa noite.

Verdades

A verdade é um assunto que sempre me intrigou. Por ter essa coisa de poder ser mais de uma, como retrata esta poesia do Drummond. Me acalmaria se ela pudesse ser absoluta, no estilo “mundo das ideias”, mas não… O engraçado é que foi também a poesia (não alguma específica, mas o gênero), que me fez voltar para esse papo de doido.
Estou lendo, sem pressa ou constância, três livros muito bons (O Amor nos tempos do cólera; O Ovo Apunhalado; A rosa do povo – romance, conto e poesia). Com tantas frases boas na cabeça, eu comecei a questionar a “quantidade” de verdade das coisas, porque cabe muita verdade nessas peças não factuais. Eu sempre tive consciência de que existe um mundo feito nas entrelinhas, mas o que eu estou percebendo agora é que ele é tão sólido quanto o outro.
É claro que não se pode comparar a verdade dos fatos com a literária, mas é que a segunda pode usar também a sugestão para se manifestar, pode contar com o não dito, enquanto a primeira vive só de precisão.
Acho que comecei a escrever esse post porque me incomoda o o pouco crédito atribuído ao que não é preciso. Algumas frases do Caio Fernando Abreu tinham que sair no jornal, como manchete. (É claro que não…. eu sei). O que estou querendo dizer é que deveria haver um equilíbrio melhor entre as verdades simbólicas e as factuais na nossa vida. Acho que a gente deve ler poesia e romance com a mesma seriedade e pelo mesmo motivo que lê jornal – para se informar sobre o mundo.
Outras verdades:
– eu não sei o que fazer com este blog
– o blogspot é mesmo muito ruim, mas eu simplesmente não consigo ver o guaxinim no wordpress
– provavelmente, vou ficar outros 08 meses sem blogar aqui…

Paula, de Isabel Allende

Ontem eu terminei a leitura de Paula.

Ainda é cedo para arriscar uma resenha. Posso dizer somente que este livro mudou o tom da narradora que conversa comigo, dentro da minha cabeça.
Ela está mais profunda, levo-a mais a sério, pois aprendeu muito com essa leitura.

Não pude sublinhar Paula, pois o exemplar era emprestado. A frase que me vem à mente agora é do fina do livro:

“O problema da ficção é que ela tem que ser verossímil, quando a realidade raramente o é.”

Esta frase não é a frase do livro. Ele tem muito mais bifurcações que isso, mas é a que eu tenho para trazer agora.

Estou decidida a comprar alguns exemplares na versão pocket, reler e subinhar se tiver tempo, mas principalmente libertar via livro livre, para que mais gente possa gozar do bem à cabeça que este livro faz.

O Conde e o Passarinho

Acho que já escrevi algo sobre essa crônica aqui no blog, mas nunca é demais. O Conde e o Passarinho, crônica do Rubem Braga, é uma das coisas que eu ainda devo ler, pensar a respeito e, eventualmente escrever sobre, muitas vezes na vida – espero.

“Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque”. A crônica começa assim, com essa frase que sorri e tem a simplicidade como elemento mais bonito. (Gosto da palavra “bonito” e “bonita”. Uma coisa “bonita” soa para mim mais bonita do que uma coisa “linda” – acho “linda” tão vulgar, tão comum).

“Ora, aconteceu também um passarinho” – começa o parágrafo seguinte.

“Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho” – abre o terceiro parágrafo que se desenrola até chegar na minha frase preferida: “… é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho”.

Eu tenho que comer sacas de arroz e feijão para poder falar do texto dos outros, mas devo dizer que essa vírgula entre o gentil e o ser um passarinho me desmonta! É de uma delicadeza só! Eu curto muito os textos que conseguem impor seu ritmo ao leitor. E o Rubem Braga conseguiu mostrar o quão sensacional é o texto dele em uma frase singela desta! Pois é… que venham as sacas de arroz e feijão!

Bom, agora vou divagar um pouco!

Pode ser uma interpretação totalmente equivocada, mas a sensação que eu tenho é de que este texto é falado por um senhor com aquela típica oscilação entre calma e braveza dos velhinhos que já não são mais compreendidos, ou levados em conta.

“A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não querer ser conde”;;; “Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa”.
Dizer isso é de uma petulância, de uma intransigência e de uma certeza a que só os velhinhos têm direito!
Adoro esse “tom totalitário”, quando ele vem firme e certeiro do mais fraco para a canela do mais forte – por mais que a gente saiba que não vai fazer nem cócegas.

“Voai, voai, voai por entre as chaminés do conde, varando as fábricas do conde, sobre as máquinas de carne que trabalham para o conde, voai, voai, voai, passarinho, voai.” No final, parece que o Velhinho se acalma, se ajeita na cadeira e deseja o melhor para um mundo que já não lhe diz muito respeito.

Bom, apesar das minhas asneiras, leaim esta crônica e tirem suas próprias conclusões. É uma delícia!