Chilique prosaico

Eu deixei os panos molhados na máquina de terça até hoje;
derrubei a pilha de roupa limpa na poça de leite azedo que caiu da caixinha enquanto eu separava o lixo;
abri a geladeira e espalhei o gergelim preto que estava num saco aberto na porta por toda a cozinha;
tirei o saquinho do lixo antes de esvaziar o filtro da cafeteira;
não fiz as malas ainda e amanhã cedo tenho que voar de GUARULHOS!

Eu sou a pior dona de casa do mundo!
uuuuuurrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrgggggggggggggggggggggggg

Sobre os sensíveis e a felicidade

“Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
(…)
Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te.
Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação:um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.”
Carta de Caio Fernando Abreu a José Márcio Penido

Antes de escrever este post, preciso contar o caminho que fiz até decidir escrevê-lo.
Estava passeando pelos sites da TV Cultura, até que caí no de Tudo o que é sólido pode derreter – uma produção impecável, com um texto super bem escrito, da Ioiô Filmes.  (Re)assisti ao episódio sobre o livro Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, da Clarice Lispector – Tudo o que é sólido pode derreter tem 13 episódios baseados em obras da literatura em português. No site tem todos os episódios, vale muito a pena.

Revi este episódio especificamente porque sou fã de Clarice e porque me encanta a forma com que o seriado dá conta de mergulhar nas entrelinhas dos livros retratados; combinava com uma terça de insônia ver os promenores deste livro ampliados.

Estou lendo O Ovo Apunhalado, do Caio Fernando Abreu, e, assistindo à série, lembrei de uma frase que tinha visto no perfil dele no twitter (obviamente mantido por outra pessoa). Era “Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía”.

Decidi procurar “caio fernando, clarice lispector, doía” no Google e encontrei o texto todo. (já dei o link, mas não custa dar de novo http://www.releituras.com/caioabreu_menu.asp) .

Lendo a parte que colei aqui no blog, voltei a uma questão que me é recorrente, desde que  escrevi sobre ela em uma carta a uma amiga, no início do ano.  Volta e meia, penso na necessidade/não necessidade da dor para viver o belo.

Estava lendo Isabel Allende, quando comecei a pensar sobre isso. Nos idos de fevereiro de 2009, escrevi a esta amiga que havia concluído que algumas pessoas vivem em um mundo mais bonito, mas com oscilações de temperatura terríveis. Acho que é este o mundo dos sensíveis, um lugar com (perdoem a pieguice)  vendavais de sentimentos sob chuvas de estrelas cadentes e auroras boreais.  Tenho a sensação de quanto mais bonito o que a pessoa pode ver, mais fortes os ventos que ela precisa aguentar.

Eu me considero uma pessoa sensível, mas não trago o sofrimento e a loucura dos que escrevem textos como os da Clarice Lispector e o do Caio Fernando Abreu. O que ganho com isso é que, provavelmente, sou mais feliz. O que perco é que, com certeza, não vejo algumas maravilhas que eles viam. Acho que cada um vai até onde aguenta, como o Caio disse ao amigo: Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói.

Tudo isso me intriga porque coloca a felicidade atrelada ao medíocre.
Ser feliz implica em não ir até o mundo mais bonito, implica em não ver o que tem de mais belo para ser visto.

Isso soa muito antagônico e imperfeito para quem acredita na grandeza da felicidade, como eu acredito. Preciso pensar mais nisso, chegar a outras conclusões. Tem alguma variável me escapando nesta equação.

Chega de organização mental no blog hoje, que eu já estou ficando com sono!

Boa noite.

Na Avenida Sumaré…

… tem pitangueiras, amoreiras, sibipirunas, ipês e umas árvores retorcidas que eu não sei o nome! Tem uma subida que a gente não percebe de carro, mas que quando faz caminhando, tem vontade de abraçar as colunas do viaduto do metrô – que é onde ela termina (foto).

Tem também um apartamento no sétimo andar de um prédio, onde há uns dois meses mora esta que vos escreve. Lá, já tem quadros, sofás, estante, enfeites, puffs e camas. Armário, geladeira, máquina de lavar roupa, tevê. Tem tomadas novas e branquinhas, que entraram no lugar das velhas e cinzas, graças ao carinho de um padrinho, que também pôs varal, prateleiras bonitinhas, luminárias, luzes que transformaram o banheiro num camarim, porta-toalhas, e tentou tirar o chuveiro da parede daquilo que se quer transformar em lavabo (só que o teimoso não saiu, porque o registro estava espanado. Mas isso é outra história).
Tem internet rápida (e aberta para a geral) e um fogão que está na caixa há uns 40 dias, porque a moradora do apartamento não é muito de fazer comida mesmo e tem preguiça de ficar em casa no sábado pro moço da assistência técnica ir instalar. Ah… tem mesinha de boteco e azulejo de arvorezinha na cozinha – tão bonitinho que só vendo mesmo. E a sanduicheira e a cafeteira, que são os eletrodomésticos que mais trabalham na casa.
Na porta de entrada tem uma correntinha de passarinhos de origami azuis.
Três das quatro chaves que foram feitas ficam na portaria e apenas uma no chaveiro da dona do ap- elas foram indo pra lá por motivos diversos e não voltam porque dificilmente vai-se tomar a iniciativa de descer só para resolver isso. Tem um copo de liquidificador, separado de sua base, que ainda está na casa antiga. E dois bules no jogo de louça, por mais que nunca se tenha usado nenhum.
Assim como a avenida, o apartamento é cheio de plantas. Só não sabemos se elas sobreviverão ao banho de água com omo que tomaram hoje cedo- pois estavam no tanque na hora em que a máquina de lavar entrou no enxague. Torçamos =)
___
Silly, mas fazia tempo que eu queria escrever sobre o Ap!
Agora… tá na hora de vencer a preguiça e deixá-lo um pouco, para ir dar uma volta por sp!
Bisou!